Ab aeterno

As minhas boas vindas a todos os que por aqui passarem. Espero que apreciem o que vos dou aqui. Os desenhos, as fotografias e os textos que publico são da minha autoria (caso não sejam eu mencionarei).

Usufruam.


sexta-feira, 23 de maio de 2008

O Mundo das Crianças

(montagem de dois desenhos)

Num dia, há muito tempo atrás
Crianças nasciam

Brincavam, riam ao som do rio
Transpiravam inocência nas suas brincadeiras
Ah como era bela a visão desses pequenas criaturas
Tão puras, tão perfeitas
Eram elas que faziam o Mundo
Eram elas que faziam sorrir os anciãos
Era para elas que as árvores floresciam
Que os pássaros cantavam
E o que o rio corria
Ah como era bela a imagem do Mundo perfeito
Os bosques alegravam-se ao receber aqueles seres tão puros
Era a voz das crianças que reinava
Era a voz delas que conjuntamente com o rio
Com o som das folhas
E com a melodia dos pássaros
Compunha o mundo
E que Mundo magnificente
Que Mundo majestoso, cândido
Ele pertencia-lhes, era para elas que ele vivia
Eram elas que lhe davam a vida, as preciosas crianças

Agora elas cresceram, envelheceram, morreram
Todavia nunca deixaram de ser aquelas jovens crianças
No espírito de cada uma delas aquela centelha de pureza manteve-se
E hoje elas são esses espíritos selvagens e puros que nos rodeiam
Elas permanecem em cada brisa,
Em cada gota de agua,
Em cada riso,
Em cada olhar de uma criança
Em cada espírito jovem,
Em cada um de nós
E são essas crianças que outrora brincavam nos bosques ao som do rio
Que sustem o mundo na palma das suas mãos
Pois foram elas que o amaram incondicionalmente,
Que com a sua pureza e riqueza de espírito o conquistaram
E assim, foi a elas que o Mundo ofertou a sua sumptuosa alma.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Alegoria do Mago


Em tempos que já lá vão um ainda jovem mago
De olhos da cor do céu e cabelos cor do carvão
Com delicadas e firmes mãos
Fruto da inocente sabedoria ainda apreendida
Tecia seguramente numa renda fina
A ainda prematura teia da vida.
Uma teia imaculada, forte porém delicada
Que aos olhos do Sol sempre reluzia

O mago vivia satisfeito,
Pregava aos rios e ás flores os seus escritos
Consolava o amargurado lobo selvagem,
Cantava aos pássaros ensinando-lhes maravilhosas canções
E à noite cortejava a Lua com doces melodias

Todavia, o tempo encarregou-se
De brincar com o jovem mago
Torturou-o e
Tornou-o num ser deveras sapiente mas um tanto angustiado
Agora, os seus olhos joviais enegreceram-se e
O cabelo ficou grisalho,
A pele encarquilhou,
As mãos ficaram trémulas e cobertas de calosidades
E a renda…! A renda outrora tão firme
Tornou-se desleixada
Descuidada como as mãos do mago.
A teia da vida
Pela velhice e pela amargura ficou marcada
E neste momento, não passa de um mero fio
Suspenso por uma frágil linha
Tecida por um decrépito velho cansado.

E tudo, porque foram escassos os jovens
Que o tempo permitiu deixar ousados
Para que aprendessem a arte da sabedoria
E assim restituíssem a magia,
A jovialidade que a teia da vida tanto aprecia.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Uma Rosa para ti




Venho num passo lento e despreocupado oferecer esta rosa de um cheiro tão doce e de pétalas tão macias ao toque como a seda mais pura.
Eis que o destinatário deste presente é alguém deveras respeitado com quem devemos ter sempre presentes os bons modos, por isso quanto mais me aproximo, o passo despreocupado transfigura-se num passo hesitante, algo receoso pelo que o destinatário achará. Não espero agradecimentos da parte dele, anseio somente agradá-lo com esta bela rosa a que tive o cuidado de tirar os espinhos, não o fosse ofender. E, como dizia não espero agradecimentos, não espero palavras, sorrisos, apertos de mãos e muito menos um abraço ou um beijo no rosto, tenho sim a esperança de ao oferecer-lhe o meu delicado presente possa ver uma pequena centelha nos seus olhos, algo semelhante a um olhar caloroso um pouco inibido, só isso trar-me-ia uma grande alegria.
Nunca o visitei, e isso ainda intensifica mais o meu receio, desconheço o seu aspecto e quanto ao seu carácter baseio-me apenas no que os outros dizem: que não devemos esperar boas recepções pois ele é frio e não convida ninguém a entrar. Porém, nas minhas divagações penso se alguma vez essa gente que fala dele já o visitou e, se realmente o que dizem é fundamentado… mas em breve descobrirei e as dúvidas dissipar-se-ão.
Estou cada vez mais perto, daqui a talvez uns escassos cem metros alcançarei o seu lar. Aperto a frágil rosa na minha mão para que permaneça firme. A razão porque aqui estou é a rosa, hoje de manhã ao olhá-la vi nas pequenas gotas de orvalho que pendiam débeis nela o rosto dele, um rosto um tanto mal tratado, a começar a envelhecer, o cabelo castanho apesar de ainda forte começa a ficar pintalgado de branco e, em redor dos seus claros olhos enigmáticos de um azul esverdeado ou verde azulado (talvez sejam os olhos que lhe dão aquela postura frígida de que as pessoas falam) começam a surgir pequenas rugas. Ele é na verdade um pouco estranho, uma figura misteriosa…contudo, emana um grande poder, só pelo vislumbre no orvalho da sua figura é perceptível a opulência, a sabedoria da quais ele é portador, todavia, também nele se vislumbra um rasgo de tristeza, um amargo sofrimento a que sempre esteve fadado.
Cheguei, basta proferir um cumprimento que ele dará pela minha presença e virá, nem que seja para me mandar embora com um olhar rígido, mas virá. As minhas mãos começam a humedecer de ansiedade. Passo cuidadosamente a rosa de uma mão para a outra de modo a esfriá-las. Depois numa voz que tento que saia calma e segura chamo-o:
- Mundo!
Vejo-o a aproximar-se, direito, compassadamente avança na minha direcção, é uma figura simples, de roupas gastas pelo tempo mas que não lhe retiram nem um pouco da sua dignidade.
- Ora boa tarde – cumprimenta ele. Nada do olhar frigido, da figura rígida. Afinal, tudo isso não passava de boatos de quem nunca o ousou visitar. Ele esboça um sorriso e pergunta se pode ajudar em alguma coisa. Eu, um pouco relutante ainda digo-lhe por fim o que ali me levou:
- Não, vinha somente visitá-lo e oferecer-lhe esta rosa que colhi esta manhã, foi ela que me impeliu a vir até aqui… – e tento também eu esboçar um sorriso, mas sai-me um pouco tímido por ainda não estar à vontade.
No momento em que lhe dei a rosa vi que todos os meus receios tinham sido descabidos. Ele estava ali diante de mim com um sorriso resplandecente que alcançou ainda um brilho maior quando lhe dei a rosa. Como o sorriso também os seus olhos brilhavam, não vi só uma centelha, vi o agradável olhar caloroso que nunca pensei vislumbrar. O Mundo pegou na rosa e num gesto protector afagou-me o braço e sorrindo disse:
- Não era preciso teres me trazido uma rosa, basta que quando me venhas visitar tragas um sorriso genuíno.
Naquele momento ele transformou-se, já não era a figura de cabelos pintalgados pelo cansaço e sofrimento e de rugas nos cantos dos olhos. Desta vez era uma criança, com os mesmos olhos claros de uma cor indecifrável todavia, não transportavam tristeza alguma, estavam cintilantes à luz do dia, o cabelo também já não era grisalho, era de um castanho revigorante e estava todo desgrenhado. As roupas continuavam a ser simples como anteriormente e, na sua felicidade infantil trauteava com os pássaros e brincava num campo verdejante. Enfim, era uma criança feliz.
Depois tudo voltou a realidade, o Mundo retomou àquela figura marcada pelo tempo mas mais ainda pelo sofrimento. Não sei se o que vislumbrei foi o passado ou algo vindouro ou somente uma utopia. Porém, o Mundo pareceu ler-me os pensamentos e, ainda com um sorriso a brincar na sua boca disse numa voz menos audível:
- Pode vir a ser assim, basta uma rosa, uma qualquer flor acompanhadas de um sorriso genuíno, ou então, somente o sorriso sincero por parte da Humanidade…
Então percebi, um sorriso, o quanto baste para tirar o rasgo de sofrimento amargo ao Mundo e torná-lo aquela criança de cabelo desgrenhado que com certeza adoraria brincar com todos nós.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Guardião da Noite



Eu sou o guardião da noite,
Aquele que vive na escuridão,
Que escuta todos os murmúrios,
Que conhece cada brisa instável,
Que sabe quando o lobo chora,
Quando a sábia coruja proclama
E, quando o jovem riacho está amedrontado.

Eu sou o guardião da noite,
O justiceiro da escuridão
Que guarda cautelosamente a terra e o céu ,
Sou oculto,
Sou a sombra
Que permanece de vigia

Eu sou o humilde pastor de estrelas
E o dedicado amante da lua,
Eu protejo,
Eu vivo,
Eu amo,
Eu sou, no negrume da noite,
O nobre “homem-anjo”.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Prisioneiro da Vida



Parecem distantes os tempos que já lá vão. Tempos que na verdade não o são, são tempos próximos, tão próximos como o dia anterior a este.

Tempos próximos mas que jamais se tornaram alcançáveis. Nem sequer réplicas desses dias voltarei a viver.
Dias esses em que sentia o doce sabor do teu beijo, em que podia sentir a tua mão entrelaçada na minha. Dias em que desvendávamos os mais recônditos mistérios da floresta. Em que percorríamos os verdejantes campos cobertos de flores, e, quando encontrávamos uma árvore nos quedávamos junto a ela, desfrutando da sua refrescante sombra e ouvindo a alegre melodia que os pássaros entoavam, enquanto nós, abraçados, proferíamos palavras com significados eternos. Ai, sentia o meu coração cálido, intensamente feliz pelo facto de te ter a meu lado, de poder ouvir o teu riso tão doce e melodioso enquanto galhofávamos por tudo e por nada, apenas porque… como era comprazeroso brincarmos que nem crianças alegres que divulgam por todos essa alegria tão inocente e imperturbável. Felicidade pura era a que nos compartilhávamos, uma união profunda que fundia as nossas almas numa só, uma união inabalável.
Mas agora que tenho eu? Os verdejantes e floridos campos parecem-me secos e murchos. Não consigo sentir o aroma das flores, já nem tenho sequer vontade de as olhar, aquelas cores garridas que antes os meus olhos se deliciavam ao observar enegreceram-se. A minha visão é obscura, não consigo ver nada para além da nefastidade e do sofrimento que me atingiu. Tornei-me surdo perante o mundo, já não oiço os cânticos dos pássaros, eles, aos meus ouvidos silenciaram-se. Já não oiço o efervescente riacho, talvez tenha secado por algum motivo no meu mundo.
Sim, porque agora eu tenho um mundo, um mundo cercado por altos muros, completamente impenetrável onde no seu interior eu me acerco e até a mim próprio me renego. Eu, não passo de um errante que vagueia pelas trevas da vida, por lugares inimagináveis, sítios onde mais ninguém ousa penetrar.
Não passo de um prisioneiro da vida, agrilhoado ao dia à dia sem dele conseguir escapar. Não passo de um deserto sem um único oásis. Eu sou aquela areia seca e árida a que sugaram toda a água. É assim que me sinto, todo o meu tutano foi sugado assim como as minhas lágrimas, que não resistiram à secura do colossal deserto e secaram, não conseguindo nem elas expressar um pouco que fosse da dor que estou a viver. Eu, perdi o meu oásis, onde encho agora o meu coração? A água cessou e eu já não tenho como sacia-lo. Ele está árido e nem sequer uma gota tem para lhe enganar a sede. A verdade é que se esta a desfazer, e tu, já não estas cá para com todo o cuidado e auspiciosamente juntares os seus fragmentos dispersos e reconstruí-lo novamente.
Sou cada vez mais areia, cada vez menos homem. No meu interior, os ventos desérticos tudo assolaram, desmoronaram a minha alma, gelaram-me o coração, roubaram-me até ao âmago e deixaram somente dolorosas recordações. Memórias de ti, fragmentos tão belos e confortáveis que de tão magníficos que são ainda mais me corroem interiormente, por serem precisamente pedaços perdidos que nunca mais voltarão a ser revividos, peças que o vento bera teimou em deixar. Marcas que me visitarão todos os dias o pensamento, que farão a minha alma chorar e o meu coração arder de saudade. Marcas, que ao invés de ti me beijarão cada acordar, cada anoitecer e andarão ainda de mão entrelaçada na minha ao longo de todo o dia. Marcas, vestígios dolorosos que me consumirão e com os quais para sempre viverei, porque um dia, a minha humanidade, a minha medíocre raça não foi suficiente para agarrar a tua alma, enquanto tu, respiravas nos meus braços o último sopro de vida, e eu observava impotente. Tudo, porque nesse dia, nem o meu sumptuoso amor conseguiu desarmar e derrotar a sempre tão vitoriosa morte.

domingo, 28 de outubro de 2007

O Momento


«Um momento não são momentos
Este é o momento
Onde tudo é destruído,
Demolido para ser reconstruído»

Deixa-me voar
Horizontes percorrer
Montanhas cruzar
Viajar sem perceber,
E, finalmente compreender
Sentindo a tua compassada respiração,
O ribombar de cada batida do teu coração,
A tua gentil mão
Acariciando-me sem quase se aperceber,
De mansinho contactando com a minha pele
E eu, sentindo,
Apreciando cada caricia
E retribuindo a blandícia num abraço intemporal,
Num afago eternal
De uma paixão imortal

Sussurro do vento,
Rebentar das ondas,
Aroma da maresia,
Brumas que nos envolvem,
Cenário mágico,
Paz que nos consome,
Silêncio que abafa
Palavras esporádicas,
Distâncias que se quebram,
Inocência que se transforma,
Corações que se renovam,
Felicidade que transborda,
Almas que brilham,
Neste etapa assombrosa

Atalho do sonho
Senda da perfeição
Carreira de excelência
Rumo de exactidão
Esse é o caminho que agora percorro.
Quatro pegadas na delicada areia
Reafirmando a cumplicidade inabalável
De dois corpos que caminham imperturbáveis
Deixando para trás
Num tempo que parece longínquo
As somente duas passadas
Que caminhavam solitárias
Pelas praias abandonadas

Deixa-me permanecer
Viver nesta união
Em que o árduo trilho do passado
Já pode ser suportado.
Em que o presente é a dádiva tão desejada
De poder ser compartilhada,
E o futuro recôndito
Muitas vezes indecifrável
Repleto de dissabores
Será mais facilmente suportável
Somente,
Porque uma vez no meu monótono caminho
Se cruzou comigo este outro ser
Ao princípio desconhecido e até esquisito
Mas que aos poucos se foi transformando,
Ganhando valor com os seus feitos:
Nunca me abandonando
Erguendo-me nos tenebrosos momentos
Dando-me a mão quando caminhava pelas trevas
Abraçando-me nas incertezas,
Dando, até aos momentos amargos
Um toque adocicado.
Este foi o Humano,
Que em todos os aspectos me conquistou
Me transformou
Tornando-se meu amante.
E passámos a ser daí adiante
Duas almas que caminham a quatro passos
Nesta vida que até acarreta felicidade.


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Nas trevas do ser


Oiço os ruídos da floresta, os animais que murmuram agitados entre si, e, ao longe, o riacho que corre mais agitado que habitualmente.
Hoje vim até ao penhasco, daqui consigo observar tudo, a magnificência da Natureza, mas, apesar do seu esplendor não consigo deixar de sentir a solidão que se apodera de mim.
Aproxima-se uma noite de trevas e escuridão onde nem lua se conseguirá afirmar e será arrebatada pelo céu plúmbeo. Agora, aqui no alto começo a sentir a brisa fria que brinca suavemente com os meus pelos mas que promete, quando se tornar mais intensa, guerrear com eles ao invés da inocente brincadeira.
Cheiro o sopro do vento em meu redor, cheiro as lágrimas e o sofrimento que hoje teimam em vencer-me.
Olho para o céu e vejo-vos. Solto um uivo embargado pela dor que nem as lágrimas conseguem expressar. O uivo ressoa, ressoa pelo ar que o leva até aos mais recônditos ouvidos de quem me ouve. Eu sei que vocês me ouvem, sei que me entendem e que lamentam também.
Eu, apenas desejava sentir-vos sem ser sob a forma de blandícias do vento. Apenas desejava ter-vos aqui para que vencessem a minha mágoa e me transformassem de novo numa criatura feliz. Queria somente ter-vos aqui, sentir o vosso calor real, e, com ou sem palavras sentir o vosso apoio incondicional, a força que vocês emanam. Daria tudo para transfigurar este cenário nefasto.
Quero sentir de novo o abraço revigorante da brisa sem cheirar as lágrimas que ela acarreta. Quero ouvir novamente o chilrear dos pássaros sem o associar a uma triste melodia. Quero mergulhar nas águas do riacho e sentir unicamente a frescura e a vitalidade que ele emana, sem pensar no árduo caminho que ele tem de percorrer. Quero, acima de tudo, que este lugar que vocês deixaram aberto ao partirem se preencha, quero meramente relembrar-vos sem sofrimento, apenas com agradáveis memórias doces.
Enfim, quero voltar a sentir o que é, sem qualquer ressentimento, o delicioso sabor da vida.