segunda-feira, 15 de março de 2010
A Poética do Carvão
domingo, 14 de março de 2010
A Morte da Originalidade numa Secundária

Esta semana tive uma experiência inquietantemente bizarra de afecção física e psicológica. Não fiz nada de transcendente, não visitei um hospício, não calcorreie uma instituição de carácter um pouco mais “desviante”. Não, nada disso, pisei apenas o átrio de uma secundária. Mas que experiência inquietante, perguntam vocês, poderá ter-se ao visitar uma mera secundária? Para mim foi uma experiência desagradavelmente desconfortável, com direito a enfatização e tudo.
Tudo começou com o aproximar-se da instituição. Há porta da instituição de ensino estavam já alguns estudantes. Não tomei atenção às conversas que mantinham entre si, agora que reparo dei antes primazia às acções, aos movimentos que delineavam no tempo. A maior parte dos que circundavam o all de entrada da secundária eram rapazes que se entretinham a enrolar o que daria numa ganza. Sou uma jovem de 17 anos, não me espantou que estivessem a fumar drogas leves, de facto isso foi apenas um pormenor que lamentei e, que me levou a questionar se, todos os dias, aquelas pessoas se dedicavam a queimar as suas células cerebrais pela hora de almoço (creio que sim). Para além destes jovens rapazes estavam também pequenos grupos espalhados ali naquele local de espera para entrar na escola.
A minha experiência nefasta começou quando tive de abandonar a sala de espera e entrei no consultório, ou seja, entrei na escola em si. Há que mencionar que estava a acompanhar uma colega que, em nome da psicologia, estava a realizar um trabalho (de influencias sociais – bastante evidente). Mas prosseguindo, lá entrei eu na secundária. O sentimento deve ter sido semelhante ao de uma entrada de um paciente no consultório de um médico que demonstra ser irreversivelmente horrível.
Eu já sabia o que esperar da secundária, já sabia que ela era frequentada por, o que corriqueiramente, e numa linguagem de grupos urbanos, se denomina de betos ou “wanna be’s”. Também já calculava que me iria sentir mal circundada por essas pessoas desse grupo urbano.
Só um pequeno aparte que julgo necessário: eu não me enquadraria em nenhum grupo urbano juvenil específico. Como tudo, sei que sou influenciada em muitos aspectos e o vestuário é um deles com certeza, todavia abomino “igualdades”, gosta da diferença, aprecio o alternativo. No que toca ao estilo pessoal de vestuário gosto de ser diferente, de tentar originalidade. Num campo mais intelectual-psicologico prezo conversas inteligentes, profícuas (obviamente que uma banalidade de vez em quando é suportável mas as superficialidades são bastante dispensáveis); tenho também preconceitos, especialmente em relação aos denominados “betos”, mas tento construtivamente explicá-los.
Terminado o aparte, retomo à narrativa do meu momento angustiante. Quando entrei então naquele consultório estudantil coabitado por jovens mais ou menos da minha faixa etária, fui assolada por um sentimento de, o que diria mais se aproximar da realidade, repulsa, uma repulsa social. Parecia que tinha ancorado numa ilha na qual as pessoas haviam sido fabricadas em série de acordo com um mesmo padrão. Todos eram iguais. Todos usavam as mesmas malas, o mesmo penteado, as mesmas marcas, o mesmo estilo de roupa, todos tinham os mesmos trejeitos e se movimentavam de maneira muito semelhante. Posso facilmente contar pelas mãos as pessoas que me pareceram um pouco desviantes. De resto, aquela ilha encontrava-se atolada de pessoas iguais. Ali o conceito de originalidade, de diferença com certeza não era conhecido. Talvez isto pareça demasiado preconceituoso e arrogante da minha parte, mas não consigo deixar de sentir a repulsa que me assolou, ainda para mais sabendo que eles próprios, os habitantes daquela ilha sem identidade própria, sabiam conscientemente que eram iguais e sentiam-se bem com isso. Para mim, de modo arrogante ou não, torna-se impraticável compreender como pode alguém conformar-se sendo igual ao outro. A criatividade tem um importante papel na minha vida.
Obviamente que o vestuário é apenas uma capa, uma capa que gera preconceitos claro. Aliás, há inclusive pessoas que não têm dinheiro para sustentar um vestuário confortável e são injustamente alvo de estigmas por isso. Mas peço por momentos que nos centremos apenas naquelas pessoas, daquela secundária, que têm hipótese de ser originais no modo de vestir (acho até que gastam demasiado dinheiro em marcas dispendiosas). Elas escolhem ser iguais, conscientemente. Poderia também acrescentar que escolhem ainda ser cartazes publicitários das marcas que usam estampadas (mas isso já seria outra conversa). É que, apesar das roupas serem apenas uma capa, a verdade é que elas, a maior parte das vezes, dizem bastante acerca de quem as veste. Façamos aqui um esforço mental: não é por ventura verdade que os artistas, sejam eles músicos, pintores, fotógrafos, etc, têm um estilo muito mais original de se vestirem? Mesmo quando são simples eles têm algo de único. Eu não faço a apologia da extravagancia ou da excentricidade, julgo até que na simplicidade (e gastando pouco dinheiro) se consegue ser criativo e único.
Concluindo, a experiência do átrio da secundária foi de facto claustrofóbica. Gostaria de perceber porque todos se conformam em ser iguais, talvez um dia vá lá e os questione. Quando às conversas que têm entre eles, não sei se aqueles estudantes têm conversas complexas ou superficiais, apesar de ter um palpite (mas isso já não sei corroborar por isso escolho não opinar). Todavia tudo isto é para mim uma situação intrigante. O entrar naquele território de pessoas padronizadas fez-me questionar a identidade individual de cada uma daquelas pessoas que cruzavam o espaço enquanto eu passava por elas. Por outro lado, fez-me valorizar os “outsiders” da sociedade, desde já dou-lhes os parabéns pela originalidade que imprimem ao nosso quotidiano.
nota: imagem de http://casadogalo.com/wp-content/uploads/windowslivewriteridentidadeoquerealmentefaltaparans-7938originalidade-3.jpg
sábado, 12 de dezembro de 2009
É Natal

Os sinos rasgam o silêncio da estação coma sua prece de ingratidão. Anunciam uma época festiva cujo sentido é hoje desconhecido. Os sinos tocam e o eco retumba na ausência do coração do Homem. O menino Jesus chega num embrulho de ouro anunciado por uma estrela da mais alta tecnologia. O Pai Natal vem em primeira classe num avião sofisticado enquanto os seus duendes morrem num esforço sofrido em terras áridas, em fábricas desumanas para servir os caprichosos e egoístas.
As renas já não passam de pele, esfoladas pelo Pai Natal em natais passados, servem apenas de sacola para presentes de luxúria. Mas a culpa não é do homem vestido de vermelho. A culpa é dos pedidos, escritos criteriosamente na essência corrompida do Homem que não se cansa de ansiar pela soberba, que não deixa de desejar o mundo aos seus pés.
As Igrejas enchem-se à meia-noite das vésperas de Natal, todavia, o canto do galo é efémero. Prega-se a solidariedade e o amor mas as pessoas saem a correr para viver a inveja e o ódio. Ora-se por aqueles que nada têm mas as pessoas saem a correr para comprar trabalho infantil e mão-de-obra explorada. Reza-se para que não se ceda ao hedonismo e aos materialismos, mas as pessoas saem a correr para consumir os prazeres imediatos e palpáveis.
Enchem-se as mesas com gula enquanto as crianças desembrulham presentes com rótulos de alta qualidade mas sem conteúdos de amor. Elas riem, agradecem sem saber (mas um dia saberão) que os únicos laços que aquelas prendas possuem são os exteriores, que facilmente se rasgam com um puxar de mão. Os pais sorriem em resposta porque sentem que compensaram o amor que não dão, o tempo que não têm, a relação que nunca edificarão.
Todos são felizes na época de Natal, a época dos efeitos coloridos abundantes que tentam esconder a pobreza, a fome, a morte, a doença na qual a maior parte do mundo celebra a época. Enquanto uns esbanjam dinheiro pelas algibeiras outros rastejam em busca de uma única moeda que lhes renda um pedaço de pão.
Ligamos a televisão e ouvimos: “Neste Natal seja solidário”, “Neste Natal faça o seu contributo”. E aqui surge a interrogação: porque não ouvimos todos os dias na caixinha mágica com igual clamor vozes que dizem seja solidário hoje? Talvez não passe de mais uma tentativa de encobrir o consumismo que é o Natal: já que gasta tanto dinheiro em inutilidades, tenha o mínimo de decência e dê uns tostões aos pobrezinhos.
Qual o simbolismo natalício actualmente? Um consumo inútil, desenfreado. Uma estória bonita corrompida. Porque agora o Pai Natal já não é o mito do imaginário de uma criança: o velho simples das barbas imaculadas com a sua sacola de alegria que galopa os céus com as suas belas renas. O Pai Natal agora veste Prada, é patrocinado pela Coca-Cola e trás consigo um cachecol e umas luvas na Coco Channel. As renas não passam de cabedal da melhor qualidade num saco que já não transporta caridade, união, família, felicidade, mas antes LCD’s, playstations e portáteis da Apple. Por isso as crianças já não sonham e o Natal não é Natal. E por isso o repicar dos sinos anuncia uma época de solidão disfarçada. E as estrelas do céu que profetizam paz, saúde e alegria morrem a cada dia, porque são cada vez menos as crianças, que afinal são o destino do mundo, que acreditam na essência do Natal.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Aprender

Não consigo.
Quero a escuridão.
Torrentes de emoção,
Indecifráveis.
Não quero decifrar,
Chorar,
Quero afastar demónios de capítulos incompreendidos,
De banais trivialidades.
Queria compreender,
O amor.
Queria compreender a luz
Queria compreender um mundo,
Mas não consigo ficar,
Não consigo abarcar esta miríade de sensações.
Não peço um olhar,
Não aspiro as ligeirezas de um romance,
Não exijo alegria.
O que eu quero é o silêncio da noite,
A quietude do negrume
Sem sombras de ilusão.
Do que eu preciso é de uma mão
Dada na escuridão
Preciso dessa mão
Para compreender o sofrimento.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
O Desígnio do Homem

Do céu plúmbeo um raio floresceu
Das chamas uma gota caiu
Do ódio uma centelha surgiu
E o negrume deu lugar à luz
As Eras foram passando
Compostas por milénios, centenários, séculos, décadas, anos, meses
E por fim…dias
E o que outrora fora vencido
Dos rios do esquecimento começa a surgir
“Oh mundo corrompido…!
Pensam que és forte
Mas que quererão eles?
Eles são tantos…
E tu? Tu és somente um.”
Da terra infértil uma flor brotou
Do céu plúmbeo um raio floresceu
Das chamas uma gota caiu
Do ódio uma centelha surgiu
E o negrume deu lugar à luz
Mas…passado um pouco moldou-se o Homem.
“Oh pobre de ti!
Criaturas malfadadas de existência ignóbil
Execráveis, tolos…
Tudo pela ambição desenfreada.
Mas…oh…não chores
Eu tomarei conta de ti.”
“Querereis que vos conte?
Eu, pobre Guardião contar-vos-ei então,
E desenganem-se se julgais blasfémia o que digo.”
“Há muito muito tempo,
Tempo que nunca conseguirão imaginar com as vossas mentes limitadas
Da terra infértil uma flor brotou
Do céu plúmbeo um raio floresceu
Das chamas uma gota caiu
Do ódio uma centelha surgiu
E o negrume deu lugar à luz
Mas…passado um pouco moldou-se o Homem.”
“Homem…vós sempre fostes criaturas belas, mas a beleza trai por vezes. A sedução como deveis saber é uma arma cruel que nunca vos cansastes de usar. Cruel…cruel como vós criaturas esplendorosas. Antes das vossas mãos tocarem a superfície da terra a maldade pouco era conhecida. É verdade…por vezes existiam pequenos desacatos, mas nada mais que brigas próprias de um mundo imperfeito, logo se resolviam pois a bonança e a paz eram o exilíbris dos habitantes… até chegardes vós.”
“Não vos recordeis, aliás, desconfiareis e não ides acreditar na minha palavra…ainda assim… Antes da vossa existência habitavam o planeta outras criaturas, cada uma com um dom. Dom esse a que se dedicavam em vida: uns entregavam-se a terra, cultivando-a e protegendo-a, outros ao saber, liam os manuscritos e tentavam descobrir sempre mais, outros dedicavam-se à cura, zelando pelo bem-estar de todos e existiam ainda outros ofícios. Porém, apesar de diferentes, todas estas criaturas com aspectos característicos tinham em comum a humildade e a veneração à Mãe Natureza. Ninguém fazia mal a ninguém e todos sabiam que a Mãe era a sua Rainha e por ela zelavam.
O Mundo era um local maravilhoso até vos aparecerdes.
Houve um dia em que o céu habitualmente azul ficou pejado de nuvem negras… era um mau augúrio. Passadas umas horas duas criaturas deslumbrantes, que depois viemos a saber serem da espécie humana, surgiram num trilho junto a uma aldeia. Oh que belas criaturas…e afáveis! Todos gostaram de vós, todos, até eu esqueceram aquele presságio das nuvens carregadas de tristeza.
A verdade é que aqueles dois representantes da vossa raça eram amigáveis e bondosos e nada lhes tenho a apontar, o pior veio depois. Às décadas sobrepuseram-se os séculos e já não me recordo ao certo qual foi a infame geração vossa que iniciou uma Era de trevas no entanto, a verdade foi que aquele homem e aquela mulher tiveram filhos e depois netos e assim uma nova raça edificou-se. E com ela conflitos começaram a despontar… batalhas, guerras pelo poder, e quem eram os protagonistas? Vós pusilânimes desgraçados! Vós! E logo vós que podíeis ter sido os senhores da paz, os reais servidores da Mãe…todas as criaturas venerar-vos-iam se não fosse a vossa estúpida irreverência! Vós não tínheis apenas um dom como os demais, vós fostes abençoados com todos os dons! Puderam ter tudo, mas ainda assim preferiram o nada! Matavam-se, guerreavam por tronos inexistentes e com isso extinguiram outras espécies inocentes preconceituosos néscios…
Agora têm finalmente o mundo aos vossos pés, um mundo desgastado e velho que chora de sofrimento pois vós, vós éreis os eleitos, os seres que iriam assegurar a paz mas, ao que parece preferiram a guerra e agora o mundo lamenta-se: “Em que terei errado quando os criei?”.
O mundo é vosso agora, no entanto está gravemente ferido e a cura não passa de uma utopia…mas eu digo-vo-la na mesma, pelo menos pensareis nisso nem que seja por breves instantes. A cura é a extinção da vossa sede pelo poder, é o aniquilar do vosso tenebroso orgulho.
Vós idiotas repugnantes que matam até aqueles que são vossos pares têm ironicamente como desígnio a morte e sabeis que mais? Ninguém vos lembrará. O mundo padecerá convosco e toda a vossa almejada demanda pela imortalidade de nada valerá, convosco também ela findará. Vós asquerosos assassinos ireis aniquilar o mundo…pois a cada dia que passa ele é mais fraco…”
A terra fértil torna-se árida
As nuvens densas ocultam o Sol
As chamas consomem a vegetação ressequida
A água escasseia
A centelha esfuma-se para dar lugar ao ódio
A luz é cada vez mais negra
E o Homem é cada vez mais fraco
e de cada vez que julga o contrário essa fraqueza acentua-se.
“Ireis morrer seres inaptos, ireis morrer sós como mereceis num mundo ressequido de tantas lágrimas que verteu por vós. Ireis morrer e desaparecer e ninguém, vivalma alguma jamais vos lembrará.”
sexta-feira, 23 de maio de 2008
O Mundo das Crianças
(montagem de dois desenhos)Crianças nasciam
Transpiravam inocência nas suas brincadeiras
Ah como era bela a visão desses pequenas criaturas
Tão puras, tão perfeitas
Eram elas que faziam o Mundo
Eram elas que faziam sorrir os anciãos
Era para elas que as árvores floresciam
Que os pássaros cantavam
E o que o rio corria
Ah como era bela a imagem do Mundo perfeito
Os bosques alegravam-se ao receber aqueles seres tão puros
Era a voz das crianças que reinava
Era a voz delas que conjuntamente com o rio
Com o som das folhas
E com a melodia dos pássaros
Compunha o mundo
E que Mundo magnificente
Que Mundo majestoso, cândido
Ele pertencia-lhes, era para elas que ele vivia
Eram elas que lhe davam a vida, as preciosas crianças
Agora elas cresceram, envelheceram, morreram
Todavia nunca deixaram de ser aquelas jovens crianças
No espírito de cada uma delas aquela centelha de pureza manteve-se
E hoje elas são esses espíritos selvagens e puros que nos rodeiam
Elas permanecem em cada brisa,
Em cada gota de agua,
Em cada riso,
Em cada olhar de uma criança
Em cada espírito jovem,
Em cada um de nós
E são essas crianças que outrora brincavam nos bosques ao som do rio
Que sustem o mundo na palma das suas mãos
Pois foram elas que o amaram incondicionalmente,
Que com a sua pureza e riqueza de espírito o conquistaram
E assim, foi a elas que o Mundo ofertou a sua sumptuosa alma.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Alegoria do Mago

De olhos da cor do céu e cabelos cor do carvão
Com delicadas e firmes mãos
Fruto da inocente sabedoria ainda apreendida
Tecia seguramente numa renda fina
A ainda prematura teia da vida.
Uma teia imaculada, forte porém delicada
Que aos olhos do Sol sempre reluzia
O mago vivia satisfeito,
Pregava aos rios e ás flores os seus escritos
Consolava o amargurado lobo selvagem,
Cantava aos pássaros ensinando-lhes maravilhosas canções
E à noite cortejava a Lua com doces melodias
Todavia, o tempo encarregou-se
De brincar com o jovem mago
Torturou-o e
Tornou-o num ser deveras sapiente mas um tanto angustiado
Agora, os seus olhos joviais enegreceram-se e
O cabelo ficou grisalho,
A pele encarquilhou,
As mãos ficaram trémulas e cobertas de calosidades
E a renda…! A renda outrora tão firme
Tornou-se desleixada
Descuidada como as mãos do mago.
A teia da vida
Pela velhice e pela amargura ficou marcada
E neste momento, não passa de um mero fio
Suspenso por uma frágil linha
Tecida por um decrépito velho cansado.
E tudo, porque foram escassos os jovens
Que o tempo permitiu deixar ousados
Para que aprendessem a arte da sabedoria
E assim restituíssem a magia,
A jovialidade que a teia da vida tanto aprecia.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Uma Rosa para ti

Eis que o destinatário deste presente é alguém deveras respeitado com quem devemos ter sempre presentes os bons modos, por isso quanto mais me aproximo, o passo despreocupado transfigura-se num passo hesitante, algo receoso pelo que o destinatário achará. Não espero agradecimentos da parte dele, anseio somente agradá-lo com esta bela rosa a que tive o cuidado de tirar os espinhos, não o fosse ofender. E, como dizia não espero agradecimentos, não espero palavras, sorrisos, apertos de mãos e muito menos um abraço ou um beijo no rosto, tenho sim a esperança de ao oferecer-lhe o meu delicado presente possa ver uma pequena centelha nos seus olhos, algo semelhante a um olhar caloroso um pouco inibido, só isso trar-me-ia uma grande alegria.
Nunca o visitei, e isso ainda intensifica mais o meu receio, desconheço o seu aspecto e quanto ao seu carácter baseio-me apenas no que os outros dizem: que não devemos esperar boas recepções pois ele é frio e não convida ninguém a entrar. Porém, nas minhas divagações penso se alguma vez essa gente que fala dele já o visitou e, se realmente o que dizem é fundamentado… mas em breve descobrirei e as dúvidas dissipar-se-ão.
Estou cada vez mais perto, daqui a talvez uns escassos cem metros alcançarei o seu lar. Aperto a frágil rosa na minha mão para que permaneça firme. A razão porque aqui estou é a rosa, hoje de manhã ao olhá-la vi nas pequenas gotas de orvalho que pendiam débeis nela o rosto dele, um rosto um tanto mal tratado, a começar a envelhecer, o cabelo castanho apesar de ainda forte começa a ficar pintalgado de branco e, em redor dos seus claros olhos enigmáticos de um azul esverdeado ou verde azulado (talvez sejam os olhos que lhe dão aquela postura frígida de que as pessoas falam) começam a surgir pequenas rugas. Ele é na verdade um pouco estranho, uma figura misteriosa…contudo, emana um grande poder, só pelo vislumbre no orvalho da sua figura é perceptível a opulência, a sabedoria da quais ele é portador, todavia, também nele se vislumbra um rasgo de tristeza, um amargo sofrimento a que sempre esteve fadado.
Cheguei, basta proferir um cumprimento que ele dará pela minha presença e virá, nem que seja para me mandar embora com um olhar rígido, mas virá. As minhas mãos começam a humedecer de ansiedade. Passo cuidadosamente a rosa de uma mão para a outra de modo a esfriá-las. Depois numa voz que tento que saia calma e segura chamo-o:
- Mundo!
Vejo-o a aproximar-se, direito, compassadamente avança na minha direcção, é uma figura simples, de roupas gastas pelo tempo mas que não lhe retiram nem um pouco da sua dignidade.
- Ora boa tarde – cumprimenta ele. Nada do olhar frigido, da figura rígida. Afinal, tudo isso não passava de boatos de quem nunca o ousou visitar. Ele esboça um sorriso e pergunta se pode ajudar em alguma coisa. Eu, um pouco relutante ainda digo-lhe por fim o que ali me levou:
- Não, vinha somente visitá-lo e oferecer-lhe esta rosa que colhi esta manhã, foi ela que me impeliu a vir até aqui… – e tento também eu esboçar um sorriso, mas sai-me um pouco tímido por ainda não estar à vontade.
No momento em que lhe dei a rosa vi que todos os meus receios tinham sido descabidos. Ele estava ali diante de mim com um sorriso resplandecente que alcançou ainda um brilho maior quando lhe dei a rosa. Como o sorriso também os seus olhos brilhavam, não vi só uma centelha, vi o agradável olhar caloroso que nunca pensei vislumbrar. O Mundo pegou na rosa e num gesto protector afagou-me o braço e sorrindo disse:
- Não era preciso teres me trazido uma rosa, basta que quando me venhas visitar tragas um sorriso genuíno.
Naquele momento ele transformou-se, já não era a figura de cabelos pintalgados pelo cansaço e sofrimento e de rugas nos cantos dos olhos. Desta vez era uma criança, com os mesmos olhos claros de uma cor indecifrável todavia, não transportavam tristeza alguma, estavam cintilantes à luz do dia, o cabelo também já não era grisalho, era de um castanho revigorante e estava todo desgrenhado. As roupas continuavam a ser simples como anteriormente e, na sua felicidade infantil trauteava com os pássaros e brincava num campo verdejante. Enfim, era uma criança feliz.
Depois tudo voltou a realidade, o Mundo retomou àquela figura marcada pelo tempo mas mais ainda pelo sofrimento. Não sei se o que vislumbrei foi o passado ou algo vindouro ou somente uma utopia. Porém, o Mundo pareceu ler-me os pensamentos e, ainda com um sorriso a brincar na sua boca disse numa voz menos audível:
- Pode vir a ser assim, basta uma rosa, uma qualquer flor acompanhadas de um sorriso genuíno, ou então, somente o sorriso sincero por parte da Humanidade…
Então percebi, um sorriso, o quanto baste para tirar o rasgo de sofrimento amargo ao Mundo e torná-lo aquela criança de cabelo desgrenhado que com certeza adoraria brincar com todos nós.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
O Guardião da Noite
Aquele que vive na escuridão,
Que escuta todos os murmúrios,
Que conhece cada brisa instável,
Que sabe quando o lobo chora,
Quando a sábia coruja proclama
E, quando o jovem riacho está amedrontado.
Eu sou o guardião da noite,
O justiceiro da escuridão
Que guarda cautelosamente a terra e o céu ,
Sou oculto,
Sou a sombra
Que permanece de vigia
Eu sou o humilde pastor de estrelas
E o dedicado amante da lua,
Eu protejo,
Eu vivo,
Eu amo,
Eu sou, no negrume da noite,
O nobre “homem-anjo”.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Prisioneiro da Vida

Parecem distantes os tempos que já lá vão. Tempos que na verdade não o são, são tempos próximos, tão próximos como o dia anterior a este.
Mas agora que tenho eu? Os verdejantes e floridos campos parecem-me secos e murchos. Não consigo sentir o aroma das flores, já nem tenho sequer vontade de as olhar, aquelas cores garridas que antes os meus olhos se deliciavam ao observar enegreceram-se. A minha visão é obscura, não consigo ver nada para além da nefastidade e do sofrimento que me atingiu. Tornei-me surdo perante o mundo, já não oiço os cânticos dos pássaros, eles, aos meus ouvidos silenciaram-se. Já não oiço o efervescente riacho, talvez tenha secado por algum motivo no meu mundo.
Sim, porque agora eu tenho um mundo, um mundo cercado por altos muros, completamente impenetrável onde no seu interior eu me acerco e até a mim próprio me renego. Eu, não passo de um errante que vagueia pelas trevas da vida, por lugares inimagináveis, sítios onde mais ninguém ousa penetrar.
Não passo de um prisioneiro da vida, agrilhoado ao dia à dia sem dele conseguir escapar. Não passo de um deserto sem um único oásis. Eu sou aquela areia seca e árida a que sugaram toda a água. É assim que me sinto, todo o meu tutano foi sugado assim como as minhas lágrimas, que não resistiram à secura do colossal deserto e secaram, não conseguindo nem elas expressar um pouco que fosse da dor que estou a viver. Eu, perdi o meu oásis, onde encho agora o meu coração? A água cessou e eu já não tenho como sacia-lo. Ele está árido e nem sequer uma gota tem para lhe enganar a sede. A verdade é que se esta a desfazer, e tu, já não estas cá para com todo o cuidado e auspiciosamente juntares os seus fragmentos dispersos e reconstruí-lo novamente.
Sou cada vez mais areia, cada vez menos homem. No meu interior, os ventos desérticos tudo assolaram, desmoronaram a minha alma, gelaram-me o coração, roubaram-me até ao âmago e deixaram somente dolorosas recordações. Memórias de ti, fragmentos tão belos e confortáveis que de tão magníficos que são ainda mais me corroem interiormente, por serem precisamente pedaços perdidos que nunca mais voltarão a ser revividos, peças que o vento bera teimou em deixar. Marcas que me visitarão todos os dias o pensamento, que farão a minha alma chorar e o meu coração arder de saudade. Marcas, que ao invés de ti me beijarão cada acordar, cada anoitecer e andarão ainda de mão entrelaçada na minha ao longo de todo o dia. Marcas, vestígios dolorosos que me consumirão e com os quais para sempre viverei, porque um dia, a minha humanidade, a minha medíocre raça não foi suficiente para agarrar a tua alma, enquanto tu, respiravas nos meus braços o último sopro de vida, e eu observava impotente. Tudo, porque nesse dia, nem o meu sumptuoso amor conseguiu desarmar e derrotar a sempre tão vitoriosa morte.
